Automação e Consequências

Automação e as suas Consequências

A nova onda de Automação e Consequências

Como as máquinas poderão substituir os seres humanos também no sector de serviços. Os enormes riscos de desigualdade e desumanização. As saídas — entre elas, o rendimento universal independente do trabalho.

No ano passado, a Uber começou a testar carros sem motorista, com seres humanos no interior para fazer correcções no caso de alguma coisa correr mal.

Se os testes correrem bem, a Uber irá, ao que tudo indica, substituir seu exército actual de motoristas por uma frota dos novos carros.

Automação e ConsequênciasAlguns carros já podem estacionar automaticamente. Será uma questão de tempo até que a Uber, táxis e veículos individuais sejam suficientemente inteligentes para nos levar de A a B sem que tenhamos de fazer nada?

E o que acontecerá aos empregos com essa aplicação da “inteligência artificial”, em que máquinas têm funções cognitivas humanas construídas em seu interior?

Estima-se que, somente nos EUA, 4 a 5 milhões motoristas de camiões e táxis poderiam ficar desempregados.

O veículo sem motorista é apenas um exemplo da revolução tecnológica que deverá transformar drasticamente o mundo do trabalho e o modo de vida das populações.

É preocupante que a marcha da automação, ligada à tecnologia digital, venha a causar o deslocamento de muitas fábricas e escritórios e, ao fim, provocar desemprego em massa.

Automação e ConsequênciasApenas um dia antes de deixar a presidência, o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama avisou, numa entrevista de despedida, que “os empregos estão a acabar por causa da automação, e isso vai se acelerar”, apontando a “Uber sem motorista” e “o deslocamento que ocorrerá nos prédios de escritórios de todo o país”.

Também manifestando preocupação sobre o impacto social da automação, o fundador da Microsoft, Bill Gates, propôs recentemente que os governos imponham um tributo sobre os robôs.

Empresas que usassem robôs teriam de pagar taxas sobre as rendas atribuídas ao uso da robótica.

A nova onda de Automação e Consequências

Essa proposta causou comoção. Economistas do mainstream como Lawrence Summers, ex-secretário do tesouro dos EUA, acusaram-na de retardar o avanço tecnológico.

Um crítico sugeriu que a primeira empresa a ser tributada por produzir automação deveria ser a Microsoft.

Contudo, a ideia de tributar robôs é uma resposta aos crescentes temores de que a revolução da automação venha a aumentar a desigualdade, já que muitos perdem os seus empregos, enquanto uns poucos colhem os benefícios do aumento da produtividade e do lucro.

As novas tecnologias causarão um transtorno incontrolável e irão adicionar-se ao descontentamento social e agitação política que alimentou os votos anti-establishment para o Brexit e Donald Trump.

Automação e Consequências

Estudos recentes mostram que o aprofundamento do uso da automação causará um transtorno generalizado em muitos sectores, e até mesmo em economias inteiras.

Pior, estima-se que os países em desenvolvimento são os que mais perderão, e isso irá exacerbar as já enormes desigualdades globais.

O risco da automação para os empregos nos países em desenvolvimento está estimado em 55% a 85%, de acordo com estudo feito em 2016 pela “Martin School and Citi”, da Universidade de Oxford. Grandes economias emergentes estarão sob alto risco, inclusive a China (77%) e a Índia (69%), maior do que o risco médio (57%) dos países desenvolvidos da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico).

A nova onda de Automação e Consequências

Automação e ConsequênciasO relatório da Citi-Oxford, “O futuro não é o que costumava ser” [“The Future Is Not What It Used To Be”, disponível na internet] apresenta muitas razões porque a revolução da automação será particularmente perturbadora nos países em desenvolvimento.

Primeiro, porque já está em curso a “desindustrialização prematura”, pois o trabalho na produção industrial está a tornar-se menos intensivo e muitos países em desenvolvimento atingiram ao máximo de empregos industriais.

Os processos de produção industrial estão hoje mais automatizados, inclusive em países em desenvolvimento de baixo e médio rendimento.

Segundo, enquanto as tecnologias do século 20 possibilitaram às empresas mudar a produção no exterior para tirar vantagem do trabalho barato, agora os recentes desenvolvimentos em robótica e fabricação cumulativa capacitam as empresas a posicionar a produção em fábricas automatizadas mais próximas dos mercados domésticos.

Setenta por cento dos clientes pesquisados acreditam que o desenvolvimento da automação e da impressão 3D irão encorajar as empresas a mudar as suas fábricas para perto de casa.

A China, a Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês) e a América Latina são as que têm mais a perder com essa realocação, enquanto a América do Norte, a Europa e o Japão são os maiores ganhadores.

Terceiro, “o impacto da automação pode ser mais problemático para países em desenvolvimento devido à menor demanda de consumo e redes de segurança social limitadas”, em comparação com os países desenvolvidos, segundo um resumo do relatório da Oxford Martin School.

Automação e ConsequênciasO relatório alerta que países desenvolvidos podem até ter de repensar os seus modelos gerais de desenvolvimento, à medida em que os projectos anteriores, que foram capazes de gerar emprego no passado, deixarão de funcionar.

À luz desses desenvolvimentos tecnológicos, é provável que a industrialização produza muito menos empregos na próxima geração das economias emergentes do que nos países que os precederam.

Será portanto cada vez mais difícil para empresas fabris da África e da América do Sul criar os mesmos volumes de empregos criados pelos países asiáticos.

Por outras palavras, hoje os países de baixos rendimentos não terão a mesma possibilidade de alcançar o crescimento rápido, transferindo trabalhadores do campo para empregos melhor remunerados nas fábricas”.

Ao invés de crescimento industrial voltado para as exportações, os países em desenvolvimento terão de procurar novos modelos de crescimento, afirma o relatório.

Crescimento liderado por serviços é uma opção, mas muitos serviços de baixa qualificação estão se tornando igualmente automatizáveis.

O relatório cita um estudo do Banco Mundial que mostra que os países em desenvolvimento são extremamente susceptíveis ao fato de que a sua força de trabalho está a ser cada vez mais afectada pela automação, mesmo se comparados com as economias avançadas onde os custos do trabalho são altos.

Além do mais, países com PIB per capita mais baixo têm em geral uma maior parte da força de trabalho “em risco”.

Há pois razões para preocupar-se com o futuro da convergência de renda, uma vez que os países de baixa renda são relativamente vulneráveis à automação”, conclui o relatório.

Desemprego, Tendência para Aumento

Outra série de relatórios do Instituto Global McKinsey, “Dominando a Automação para um Futuro Viável” [“Harnessing automation for a Future that Works”, que pode ver no link], revela que 49% das actividades actuais podem ser automatizadas com tecnologias já aplicadas – e isso significa 15,8 trilhões de dólares em salários, e 1,1 bilhão de empregos globalmente.

Cerca de 60% das ocupações poderiam ter 30% ou mais actividades automatizadas, e 5% dos empregos poderiam ser inteiramente automatizados.

Mas James Manyika, um dos autores do relatório, é mais animador ao dizer que essas mudanças demorarão décadas.

O modo como a automação afecta o emprego não será decidido simplesmente pelo que é tecnicamente factível.

Entre outros factores estão a economia, os mercados de trabalho, as regulações e os movimentos e atitudes sociais.

Automação e Consequências

A nova onda de Automação e Consequências

Que empregos são mais susceptíveis à automação?

Embora a maioria das pessoas pense que são os da indústria, o fato é que muitos empregos no sector de serviços também serão afectados.

O estudo da McKinsey considera o sector da hospedagem e alimentação como o mais vulnerável nos EUA, seguido pelo de manufactura e distribuição.

No sector de hospedagem e alimentação, podem ser automatizadas 73% das actividades desempenhadas por trabalhadores, inclusive preparar, cozinhar e servir comida; limpar as áreas de preparação da comida, preparar bebidas e recolher pratos sujos.

Automação e ConsequênciasNo ramo de manufactura, 59% das actividades podem ser automatizadas, especialmente actividades físicas ou maquinaria de operação em ambiente previsível.

As actividades vão desde o empacotamento de produtos até o carregamento de materiais em equipamento de produção e à soldadura na manutenção de equipamentos.

Na distribuição, 53% das actividades são automatizáveis. Incluem-se gestão de stocks, embalagem de objectos, manutenção do registo de vendas, contabilidade e recolha de informações de clientes e produtos.

Shelly Palmer, consultora especializada em tecnologia, sinalizou também empregos de colarinho branco ameaçados por “robôs” – que chama de tecnologias – tais como algoritmos para aprendizagem de máquinas, que funcionam em plataformas de computador voltadas a um determinado objectivo, treinadas para realizar tarefas hoje desempenhadas por seres humanos.

A consultora avaliou que poderiam ser substituídos os gestores médios, vendedores, repórteres, jornalistas e locutores, contadores e médicos.

Alguns analistas entusiasmam-se com os efeitos positivos da revolução da automação; outros estão alarmados com as suas consequências adversas.

Essa tendência tecnológica certamente irá aumentar a produtividade por trabalhador que mantiver o emprego, e aumentará a lucratividade das empresas que sobreviverem.

Embora no nível micro haja benefícios para as corporações e indivíduos que estão a prosperar no novo ambiente, no nível macro há efeitos dramáticos — especialmente corte dos empregos que deixarão de ser necessários.

Automação e Consequências

O que pode ser feito para retardar a automação, ou enfrentar os seus efeitos adversos?

A proposta de Bill Gates de tributar robôs é uma das mais radicais. O imposto poderia retardar as mudanças tecnológicas e os fundos gerados por ele poderiam ser usados para mitigar os efeitos sociais.

Outra ideia radical que está a gerar muito debate é assegurar um “rendimento básica” para todos os seres humanos, independentemente de estarem ou não a trabalhar.

A alta produtividade irá permitir a todos receberem um rendimento confortável; portanto, não haveria razão para se preocupar com o facto da automação acabar com os empregos.

Os governos também podem assumir a atitude “se não pode derrotá-los, junte-se a eles”.

A China, por exemplo, está observando grandes oportunidades na adesão à revolução tecnológica e planeia investir em robótica e inteligência artificial.

Objectivos mais convencionais incluem promover a educação de estudantes e trabalhadores para assumir os novos postos de trabalho necessários na administração, ou para trabalhar com o processo automatizado de produção e treinar, com as competências exigidas pelo novo ambiente, trabalhadores que se tornarão desnecessários.

Contudo, é provável que em geral haja uma perda líquida de emprego, ao menos no curto prazo, e portanto um provável descontentamento social.

Quanto aos países em desenvolvimento, será necessária muita reflexão sobre as implicações das novas tecnologias para as perspectivas económicas imediatas e de longo termo, assim como repensar a economia e as estratégias de desenvolvimento.

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